Missionárias Combonianas
Provincia Moçambique-Africa do Sul (MOSA)

A mulher não nasce mulher, torna-se mulher

 A mulher não nasce mulher, torna-se mulher

Ser mulher não é somente nascer mulher: a mulher se faz mulher como se transforma em mãe, esposa, irmã, filha, um ser humano de valores, na medida em que acolhe, se forma, se assume e realiza da melhor maneira a missão de ser mulher, de ser mãe, de ser pessoa em cujas mãos está a vida.
Ao longo da História do mundo, têm-se conferido à mulher determinados atributos, valores e aptidões, dependendo da cultura a que pertence. Ela tinha um lugar e uma função na sociedade, assim como também se lhe exigia um determinado comportamento. Os padrões de beleza exigidos à mulher eram diferentes, dependiam do país, da tradição, da história cultural do povo de que fazia parte. Assim, por exemplo, em alguns lugares da China ter os pés pequenos de 7 a 10 cm. Ou, antigamente, na etnia Kayan, da Birmânia, ter um pescoço muito cumprido era atributo de beleza e prestígio para as mulheres. Actualmente, novos ventos e horizontes ajudam as mulheres a escolhas mais livres, mesmo que ainda existam culturas que determinam padrões de comportamento para as mulheres. As culturas são dinâmicas, transformam-se e a globalização vai suprimindo esquemas e apresenta outros valores e an-tivalores que são escolhidos pelas gerações actuais.

Uma das características femininas mais importantes em todas as mulheres, de qualquer cultura e de todos os tempos, é o de poder gerar e ser mães, mas aprende-se a ser mãe, como se apreende a ser mulher. Há mães biológicas que não aprenderam a ser mães e há mães sem filhos nascidos de seu ventre que generosamente aprenderam a serem mães de filhos alheios, mas o facto de ser mãe não é tudo.
Há culturas em que a mulher que não procriou para o mundo é considerada criança, não se lhe permitindo participar em alguns ritos por ser estéril. Por isso, reafirmo que trazer filhos ao mundo não é condição suficiente para ser mulher e ser mãe. Quantas mulheres os trazem e os deixam no caminho, e quantas ao contrário, sem serem mães biológicas são verdadeiras mães.
Muitas das nossas jovens passam pelos ritos de iniciação e pensam que já são mulheres e que tem em suas mãos o poder da sexualidade, mas será que somente isso nos identifica como mulheres? Claro que não!
O exercício irresponsável da sexualidade traz dramáticas consequências. «Abortei sem saber porquê», disse a Mariana. «Não sabia se estava grávida, não queria fazê-lo. Namorei com meu namorado sem me prevenir, agora, não sei o que vou fazer.» Uma vida eliminada, ela não sabia? Será que esta jovem de 16 anos pode ser mãe? Mãe biológica podia ser, como tantas outras, mas não verdadeira mãe. Muitas jovens engravidam sem assumir o seu papel de ser mulher. Mariana não chora pelo seu filho que abortou, ela chora porque perdeu a oportunidade de estudar.
Outra mulher, mãe, chora, silenciosa, a morte do seu filho, a dor no seu rosto revela o seu estado de desolação, de impotência, de vazio. Ela não sabe nem entende porque morreu o seu filho. Terminou a missão que Deus lhe confiou, era somente por um tempo; ela o acompanhou, o vestiu; cuidou do seu desenvolvimento físico e intelectual, o ajudou a ser pessoa; a chorar, a rir, compartilhou com ele a sua vida, seus anelos, seus desafios, suas primeiras experiências na escola, na universidade. Ela mostra no seu rosto a dor de uma verdadeira mulher e mãe, não de nascimento senão de vocação, de missão assumida, adquirida, apropriada.
Essas atitudes dizem que ser mãe não é só quem traz à luz um bebe, é a missão de quem desde Belém até o Gólgota acompanha ao seu filho(a) no seu processo de ser pessoa. E ser mulher não é só ter a possibilidade de dar vidas ao mundo, é muito mais do que isso. Como bem disse Simone de Beauvoir, «a mulher não nasce mulher, torna-se mulher», porque ser mulher é um desafio e requer mudança de atitudes e de pensamentos, é passar de comportamentos egoístas a viver a solidariedade e a doação, é respeitar e respeitar-se, é proporcionar o cuidado necessário para dignificar e valorizar seu ser de mulher. É, enfim, ter um olhar crítico, sábio e sensível diante da sociedade e das suas propostas, para agir em liberdade, e de forma materna, com filhos biológicos ou não, mas sobretudo defendendo a vida.

Elizabeth Carrillo
Missionária Comboniana