Missionárias Combonianas
Provincia Moçambique-Africa do Sul (MOSA)

Mulher

Mulher, prioridade


A muhler

como prioridade

Formação e Promoção da Mulher na escola e no lar. Através duma formação integral, promovendo os valores éticos e morais num ambiente simples e digno no qual possam desenvolver suas qualidades e habilidades para serem mulheres promotoras de seu próprio crescimento humano, espiritual e cultural.

Na promoção da mulher, destaca-se o nosso trabalho nos lares, na Escola Feminina de Nacala e trabalhando com as mulheres das comunidades cristãs, para uma  maior tomada de consciência do seu valor e da sua dignidade.

 

Situação da mulher

A Ir. Adriana Vinco, uma missionária comboniana natural da Itália, trabalha na missão de Mangunde, no vale do rio Buzi, no Centro de Moçambique. Com um passado de trabalho em prol da promoção da mulher durante os anos da revolução moçambicana, em Nampula, a Ir. Adriana vê a situação da mulher com preocupação.

«A mulher moçambicana trabalha muito. Tem a seu cargo o cuidado da machamba e os trabalhos da casa. Entre estes trabalhos, um dos mais pesados é a procura da água. Aqui nesta zona não há água e as mulheres passam muito tempo fora, fazem quilómetros para trazer a água para casa. Procurar lenha e água ocupam as mulheres. Agora há bombas em algumas aldeias e elas têm de passar tempo na fila à espera da água.»

No campo da saúde, há situações que vitimizam particularmente as mulheres. «A mulher é muito mais vulnerável que o homem e está exposta a riscos maiores, como nos partos. Ainda há mulheres que morrem durante os partos nas aldeias. Depois, as mulheres estão mais expostas à sida, é difícil fazer os tratamentos porque a doença estigmatiza a pessoa. Para se tratar da sida, as mulheres afectadas têm de dispor da autorização do marido, que às vezes se nega, porque a doença neste meio ainda é tabu.»

O que faz a missão para ir ao encontro das mulheres, nas aldeias e no contexto em que vivem? «Coordenamos três grupos», continua a Ir. Adriana, «em três zonas distintas da missão e temos reuniões periódicas. O nosso trabalho de formação é inspirado pela Bíblia: procuramos conhecer as nossas origens, o nosso caminho, como gente, como povo de fé. Neste aprofundamento do conhecimento da Bíblia, fazemos ressaltar mais a participação, o contributo da mulher neste caminho da fé. Isto motiva muito a mulher a olhar para a sua situação com olhos novos. E motiva-as a afirmar a sua dignidade como mulheres, em contracorrente com a situação em que vivem de mulheres oprimidas pela tradição cultural em que vivem.»

 

Capacitar mais

Na cultura ndau, a mulher ao casar, pelo sistema do dote (lobolo, o dote pago pela família do marido à família da mulher, pago agora em dinheiro), fica a pertencer, não só ao marido, mas à família do marido. «A mulher passa muito tempo com a sogra, que tem todos os direitos sobre a nora: têm um ditado que diz que sogra com nora já não vai à procura de água.»

As irmãs missionárias «gostariam de ver as mulheres mais capacitadas para transformarem a sua vida familiar e social». Para isso, a Ir. Adriana organizou uma alfaiataria, para ensinar costura às mulheres: «Ensinamos-lhe corte e costura, para lhes dar um pouco de autonomia económica. Pessoalmente gostaria que desenvolvessem esta capacidade e arte, porque aqui não há ninguém que faça roupa, ou um uniforme para a escola ou bata para o centro de saúde. Estas mulheres que estão a aprender são todas viúvas... apesar de serem ainda jovens. Perderam os maridos por causa da sida e não é fácil para elas ganharem independência para se poderem voltar a casar, por causa do dote que as liga à família do marido. Se a família do marido não tem outro homem disponível para casar com elas, passam muito tempo sem casar... Depois, para voltarem a casar, o marido defunto deve também autorizar o novo casamento. Têm um ritual e cerimónia para obter essa autorização: quando aparece um pretendente para a mulher viúva, fazem uma cerimónia e perguntam ao marido se dá autorização para ela casar. Sem esta autorização, a viúva não pode voltar a casar. A família do marido tem, depois, de libertar a mulher viúva, permitindo-lhe regressar a casa dos pais.»

 

Educação formal

Em Moçambique, o acesso das mulheres à educação formal, nas escolas, aumentou, como mostram os números dos estudantes nas escolas em Mangunde e a percentagem das raparigas no lar da missão (ver Destaque deste número). «A possibilidade de estudar aumentou para as raparigas», confirma a Ir. Adriana, «como aumentou também o interesse, por parte delas, na educação escolar. Mas a tradição acaba por ser mais forte: apenas aparece um rapaz e a possibilidade de casamento, elas deixam a escola... O objectivo principal, para as famílias, é o casamento e os casamentos precoces acabam por desviar as raparigas da escola.»

«Felizmente», conclui a Ir. Adriana, «a mulher aqui tem uma carga forte, tem grandes capacidades. Quando descobrem a sua dignidade de mulheres, sentem-se com força e iniciativa: dizem que não podemos parar neste trabalho de tomada de consciência. A Igreja tem muito que fazer para promover as mulheres. A perspectiva da pastoral familiar não é suficiente. É importante que as mulheres tenham consciência da sua dignidade, conheçam o seu papel na sociedade e na Igreja, tenham sobretudo vez e voz. Habitualmente, nas reuniões pastorais, por exemplo, são os homens que tomam a palavra e as mulheres ficam caladas e submissas. Esta apresentação da história da salvação em feminino abre perspectivas novas, abre-lhes os olhos e desperta dentro delas um grande protagonismo e vontade de participação. Vejo que este trabalho não faz mais que dar resposta a um grande anseio, que está ali escondido nelas. À medida que avançamos no trabalho, notamos que estão mais abertas e confiantes nelas próprias.»

O futuro, por isso, é de confiança, tanto pelo que diz respeito à participação da mulher na vida familiar e social, como na Igreja. E isto apesar de, por vezes, a igreja local africana (leia-se o clero) olha com desconfiança para este trabalho de capacitação das mulheres, alegando que não está em linha com a tradição cultural africana. Para a Ir. Adriana e as demais missionárias combonianas envolvidas neste processo de promoção das mulheres africanas, os valores da tradição cultural africana só serão realmente salvaguardados e assumidos pelo Evangelho quando as mulheres ocuparem o seu lugar na sociedade africana e na Igreja. Um sonho, de futuro, que as missionárias vêem já realizar-se nas muitas iniciativas que promovem em favor das mulheres em Moçambique.