Missionárias Combonianas
Provincia Moçambique-Africa do Sul (MOSA)

Mulher

 

MARCAR A DIFERENÇA

 

Cada dia nos surpreende mais a actuação de delinquentes e criminosos nas nossas cidades. Hoje em dia, grupos de 15 a 20 delinquentes entram nas casas sem nenhum escrúpulo, ameaçam física e psicologicamente os moradores, com facas e machados, palavras ofensivas e acções violentas, e destroem vidas e residências, roubam, saqueiam, levam tudo, o bom e o menos bom.

A Dona Fátima conta: «Chegaram pela noite a minha casa. Tinham todas as ferramentas para levarem tudo. Ameaçaram-nos, pediram dinheiro, tiraram-nos os celulares, computadores, jóias, roupa, tudo! Agradeço a Deus por me deixarem a vida, para poder começar de zero. Depois desta experiência, sentia-me sem forças, trabalhar para quê? Não temos nenhuma segurança, que tristeza e frustração. Mas, penso, não! Tenho de me erguer e começar novamente, Deus dá-me força para poder continuar. Levaram o trabalho de anos, é lamentável, mas até posso dizer que o dinheiro ajudou, porque se não entregava o dinheiro levariam os meus filhos. Agora todos estão traumatizados em casa. A polícia? Não faz nada, quem sabe são dos mesmos. Por isso, denunciar para quê? Umas semanas mais tarde, os gatunos estão de novo nas ruas e será pior para quem denunciou. É melhor dar graças a Deus por estarmos vivos!»

Esta experiência não é só da Dona Fátima: é do vizinho Saide, é da Dona Madalena, e assim por diante. Para outros ainda foi pior, pois foram parar ao hospital por se terem defendido. Também a eles os delinquentes levaram tudo e ainda voltaram mais vezes às casas de alguns outros afectados pelos criminosos. Estes factos degradantes são o pão nosso de cada dia numa sociedade que encobre e faz da corrupção uma forma de vida. Os cidadãos honestos estão cada vez mais amedrontados, sem protecção nem segurança, os ladrões tomam conta da cidade. Entretanto, os polícias permanecem nas estradas porque ali duplicam o seu salário.

Qual é a função de um agente de polícia em Moçambique? Será que existem somente aqueles que cuidam do trânsito nas estradas? Na última viagem que fiz, pude comprovar como não faltam polícias na estrada de Nampula a Nacala: contei sete postos improvisados de polícia. Nunca vi tantos postos de controlo policial. E para quê? Para cobrar multas sem sentido, pois o funcionamento das chapas (carros de transporte de passageiros) continua em péssimas condições. Somos testemunhas de que muitas das vezes os motoristas entregam aos agentes da autoridade dinheiro no meio dos documentos, e a vida na estrada continua igual: condutores a conduzir em péssimas condições, infringindo as leis e conduzindo à velocidade de Schumachers moçambicanos.

Na cidade de Nacala assistimos ainda a outros abusos, como a invasão de caminhões, os mesmos que de maneira abusiva e sem respeito se tornam donos e senhores das vias públicas, impondo as suas normas e horários, estacionam em qualquer lugar da cidade, e, neste caso, a polícia brilha pela sua ausência.

O polícia é um servidor público honesto e fiel cumpridor do cuidado da segurança do cidadão em todo o lugar. É com tristeza que observamos que em Moçambique predominam os polícias de trânsito e desapareceram os agentes de segurança. A segurança dos cidadãos é um direito que garante a todos melhores condições de vida. O trabalho é de todos se queremos um país onde nacionais e estrangeiros se sintam seguros e protegidos, mas a primeira obrigação é dos agentes da autoridade, que por vocação optaram por este serviço para o dignificarem e honrarem.

Muitos destes agentes de segurança são mulheres, e por isso quero fazer um apelo às mulheres que cumprem esta tarefa e faço-o pela diferença de géneros. A mulher protege e defende a vida porque ela a engendra, por isso, é dever de toda a mulher não se deixar contagiar por acções desonestas. Porque, como disse Mia Couto, «de tanto convivermos com o intolerável, existe um risco: aos poucos aquilo que era errado acaba por ser “normal”. O que era uma resignação temporária passou a ser uma aceitação definitiva».

Mulheres-polícias, sejam vocês mesmas e marquem a diferença, repudiem todas as acções intoleráveis, que nos fazem perder a dignidade de mulher. A corrupção, a falta de civismo e de ética não é própria do ser mulher. Em qualquer profissão, imprimamos a diferença, e não nos deixemos contagiar por esse vírus que apodrece a nossa sensibilidade; exterminá-lo é dever nosso, para prosseguir com a nossa verdadeira missão de engendrar, proteger, assegurar a vida.