Missionárias Combonianas
Provincia Moçambique-Africa do Sul (MOSA)

Mulher

 

AS LÁGRIMAS SECARAM

Moçambique, a Pérola do Índico, a sua gente simples, alegre, paciente e acolhedora ergue a sua voz, mostrando que a sua paciência chegou ao limite. Milhares de pessoas em diferentes partes do país marcharam em sinal de protesto contra os corruptos e os que cometem fraudes. Quem esteve nesta marcha propõe o diálogo e a paz como único caminho a seguir.

«Ouvem-se, em Ramá, lamentações e amargos gemidos. É Raquel que chora, inconsolável, os seus filhos que já não existem» (Jr 31, 15). Lembrei-me deste trecho bíblico quando ouvi as declarações da mãe do adolescente assassinado pelos seus sequestradores na cidade da Beira. A indignação desta mãe cala fundo quando declara: «Eu sou a mãe da criança, mas não deito nenhuma lágrima e apelo a todas as mães de Moçambique para que façam greve contra o Estado, contra o Governo... Ele [Guebuza] diz que está a desenvolver Moçambique. Ele esta a destruir Moçambique» (in Verdade; http://www.verdade.co.mz/nacional/41337-ate-quando-vamos-aguentar, acesso em: 18 de Novembro de 2013).

Pergunto: onde esta a segurança à qual todo cidadão tem direito? Mães choram pelos seus filhos e outras lamentam quando vêem os seus descendentes perderem-se na luta pela vida; morre nelas a esperança de formar homens e mulheres honestos, porque o que impera no país é o crime, o roubo, a corrupção, a ganância desmedida e o abuso do poder.

Já dizia Herodes: «Em tempos de paz, são os filhos que sepultam os seus pais; em tempos de guerra, são os pais que sepultam os seus filhos.» Esta realidade é aquela que  vivem as famílias, num ambiente de medo, de insegurança, onde os órgãos de protecção do Estado são coniventes com os criminosos. Como disse M.ª Alice Mabota, presidente da Liga Moçambicana dos Direitos Humanos, na sua carta aberta aos libertadores da pátria: «A corrupção aumentou sem qualquer plano de acção para o seu combate; a incompetência dos governantes acentuou-se mais e passámos a ver ministros que nem sequer sabem o que fazem, não conhecem a casa que governam,... a criminalidade aumentou assustadoramente; a sinistralidade está ceifando vidas diariamente nas estradas; os incêndios jamais vistos ocorrem nesta governação; o branqueamento de capitais, o tráfico de órgãos humanos, drogas e armas fazem parte do sistema de uma forma impune. Os raptos sucedem-se e atingem números que assustam...» (in «Carta aberta aos libertadores da Pátria», M.ª Alice Mabota, O País, 18 de Setembro de 2013).

Morte lenta e com nomes, vemos caras, mas não vemos corações. No final é Moçambique? A pátria amada, construída com o sangue e suor de tantas e tantos moçambicanos, que sonharam com a unidade nacional e em tempos melhores para todos.

As lágrimas de tantas mães secaram, cessaram, mas fertilizam a terra. Não é tempo de chorar, é tempo de apelar à consciência dos verdadeiros filhos e filhas da pátria, é tempo de protestar contra esta onda de corrupção, de roubos e violência disfarçada que se vive na nossa pátria amada. É tempo de não desfalecer, mas de sonhar, de vestir novamente à nação a capulana da esperança, para caminhar na paz.

Porque, como dizia o grande Gandhi, a paz é o caminho! E aqui esta a nossa tarefa neste novo ano: trabalhar pela paz, viver o dia-a-dia, desafiando a corrupção com a prática da reconciliação, da justiça social, da solidariedade, do civismo. Marchar, proclamar, defender os direitos, deixando no passado ventos de guerra e armando os nossos braços com instrumentos de sabedoria, reconciliação e amor ao próximo.

Elizabeth Carrillo | missionária comboniana