Missionárias Combonianas
Provincia Moçambique-Africa do Sul (MOSA)

Historia

 

MISSIONARIAS COMBONIANAS EM MOÇAMBIQUE AFRICA DO SUL 1954- 2014

  • Passados 90 anos, em Setembro de 1954, chegáram a Moçambique as irmãs de Comboni a pedido do P. Zambonardi, o 1º missionário comboniano. Ele escreveu à Madre Geral falando-lhe da necessidade de ter as irmãs combonianas em Moçambique. Com a aprovação de Dom Teófilo de Andrade, Bispo de Nampula, o primeiro grupo de combonianas partiu de Lisboa em Agosto de 1954. Depois de 28 dias de viagem chegáram via mar à Ilha de Moçambique.

    A CHEGADA DAS PRIMEIRAS IRMÃS
    Era o dia 13 de Setembro de 1954 quando, após um mês de navegação, as Irmãs Giancarla Larghi, Irene Quaglia, Cristofora Seppi e Ezia Brenna chegaram finalmente a Moçambique.
    «À noite entre o 12 e 13 de Setembro passou para todas em branco. A aurora encontra-nos no convés do navio. Na alma agitam-se sentimentos de gratidão, de alegria, e de medo. Eis, finalmente, a Ilha de Moçambique, a nossa nova pátria. Uma fortaleza levanta-se rude e majestosa na sua construção do século XVI, lembrança dos intrépidos navegadores portugueses.
    O navio está no porto. Observamos com ansiedade, se alguém vem ao nosso encontro. Uma veste branca mostra-nos a presença de um dos missionários. Remetidas as práticas de desembarque, podemos finalmente ir para casa. Depois de um mês de mar, é preciso ainda mais 40 minutos de lancha...»

    «Da lancha, o Irmão mostra-nos a missão, que é mesmo na praia; e a nossa casa, podemos ver o telhado vermelho entre as mangueiras verdes».

MOSSURIL A PRIMOGÊNITA
Ir. Giancarla Larghi, a primeira superiora provincial das Irmãs Combonianas em Moçambique, aquela que evangelizou com a sua serenidade e com o seu sorriso, conta como teve inicio a presença missionária das irmãs:
«Chegamos a Mossuril aos 13 de Setembro de 1954. Os Padres Combonianos, já estavam lá, há alguns anos e tinham-nos preparado a casa com todo o necessário.
Mossuril é área muçulmana, mas sentimo-nos muito bem acolhidas. Já havia um grupo de cristãos. Em Mossuril havia uma bela escola de rapazes e de meninas, da qual se ocupava a Ir. Irene.
Iniciamos logo a trabalhar: escola, catecumenato, cozinha, igreja... A Irmã Irene entrou logo a ensinar na escola, a Ir. Cristofora encarregava-se do catecumenato e visitava também as famílias; a Ir. Ezia trabalhava no dispensário e eu em casa, na rouparia. Começamos as nossas actividades muito pobremente.

CAMINHANDO COM A HISTORIA
Novas comunidades, novas presenças
Com a chegada de mais irmãs ao longo dos anos, foram abertas mais comunidades: Mueria, Namahaca, Carapira, Netia, Alua, Matibane, Nampula, Anchilo, Meconta, Chipene, Buzi, Nacala, Beira, Maputo, Mangunde, Balama, Mamelodi, na África do Sul. Algumas destas comunidades deixámos, conforme víamos os tempos maduros, para outras congregações ou grupos de leigos continuarem a missão.
Todas as comunidades tinham o mesmo objectivo: educação das meninas através da escola (lar), preparação de catecúmenos para o baptismo, cuidado dos doentes nos hospitais.

Com a vinda de Dom Manuel Vieira Pinto, Bispo da Diocese de Nampula em 1967, floresceu a Igreja Ministerial, a Igreja das pequenas comunidades. Mas, pouco depois da independência, em 1975, as relações entre Estado e Igreja tornaram-se frias e difíceis, pois, o partido da Frelimo, tendo assumido o governo, implementou o marxismo-leninismo. As escolas e os centros de saúde foram nacionalizados, as igrejas foram fechadas, os missionários/as foram proibidos/as de organizar encontros, de dar formação, de visitar comunidades, de cuidar da juventude... A nossa presença missionária tornou-se uma presença de testemunho silencioso, mas a força do Espírito levou à frente o trabalho feito anteriormente e os Leigos assumiram a sua responsabilidade nas pequenas comunidades. Assim a Igreja tornou-se mais forte.

Em 1976 iniciou a guerra civil entre RENAMO e FRELIMO. As irmãs, junto a outros missionários, optaram por ficar no país, embora muitas vezes as missões fossem atacadas e as irmãs ameaçadas e abatidas; não quiseram abandonar o povo, procurando defender a vida das pessoas nas missões, com grandes riscos; partilhando as mesmas preocupações do povo, o mesmo medo, a mesma insegurança, os raptos e a morte.

FAZER CAUSA COMUM COM O POVO

DAR A VIDA ATÉ AO FIM: No dia 3 de Janeiro de 1985, a Ir. Teresa dalle Pezze foi morta numa emboscada em Muiravale, a caminho de Nacala.

Ir. Teresa foi uma missionária que não pensava em si mesma, mas no povo que  amava e servia com simplicidade. Numa carta enviada aos seus familiares escreveu:
«Não vos preocupeis, porque Deus è connosco:Queimam as aldeias, destroem e matam sem piedade, provocando uma espiral de violência que está ensanguentando o país... Nunca como agora necessita-se a nossa presença aqui. Estou disposta a viver e a morrer. Procuramos evitar os caminhos perigosos, mas estamos dispostas... e esta disposição nos ajuda a viver serenas e numa grande paz. É esta a vida, ninguém nos pode assustar, porque Deus encontra-se tanto nesta vida como na outra.»

RAPTOS: No dia 14 de Março de 1986 a Renamo sequestrou as irmãs Alma Lomboni e a ir. Piedade de Jesus Figueira. Foi um choque para todos! Porém, a fé na presença de Deus manteve as irmãs serenas, e em comunhão com o sofrimento e a esperança do povo. Foram libertadas no fim de Julho. Durante todo esse tempo as irmãs escreviam num caderno tudo o que se passava.

Eis alguns trechos escritos pela ir. Alma Lomboni:
«Em 1 de Abril. Caminhámos quase sempre pelo bosque e pelo meio da erva, mais alta que uma pessoa, subindo e descendo pelos montes, atravessando rios e riachos. A natureza é maravilhosa, a oração nasce espontânea nos nossos corações. Não são necessários livros para rezar, e, também não há tempo para os ter nas mãos. A mim a natureza, sempre me ajudou a conversar com Deus, e agora muito mais. Em verdade, sentia o Senhor tão próximo que não tinha medo de nada nem de ninguém.
A viagem era fatigosa, não existiam estradas e muitas vezes nem sendeiros, a erva roçava na face, nos braços e nas pernas. Tive sorte em trazer as meias; com a capulana cobria os braços e protegia a face. O Senhor foi bom conosco e sempre nos protegeu dos perigos e não eram poucos. Como era ‘saboroso’ cantar ou recitar e meditar, as palavras do salmo 22, nunca mais o esquecerei! O Senhor fez grandes coisas e o seu amor é eterno. Certamente por muito que escreva, não conseguirei descrever tudo o que experimentei, rezei e senti. Sim, tinha-­me preparado e desejado esta experiência. Eu chamo-a experiência com Deus.
Foi maravilhosa esta experiência, e, não obstante tudo, serviu-me para amar mais o Senhor. Sim estou enamorada d'Ele e dos meus irmãos moçambicanos; agora que partilhei por um pouco, algo da sua vida dura, sinto-o mais. Obrigado Senhor por esta experiência!»

CAMINHO COM AS COMUNIDADES:
No período que precedeu os Acordos de Paz, o 4 de Outubro 1992,  as irmãs colaboraram na preparação de integradores sociais e animadores de reconciliação nas comunidades, é  também o  tempo da multiplicação e da consolidação das pequenas comunidades cristãs, dando uma particular atenção à formação dos responsáveis dos ministérios. Aumentaram os núcleos e grupos de oração, emergiu o papel da juventude e o papel da mulher.

 A FORMAÇÃO DA MULHER, COMO PRIORIDADE:
As Irmãs Combonianas, desde os primeiros anos em Mossuril, Mueria, etc., deram particular atenção à formação e educação da mulher. Por isto abriram lares femininos em todas as missões onde estavam presentes. Em 1998 foi aberta a EFN (Escola Feminina de Nacala Porto) com o objectivo de dar uma melhor e integral formação às raparigas, especialmente às mais pobres, provenientes das nossas missões

ATENTAS PARA RESPONDER AOS NOVOS DESAFIOS:
Com a consolidação da paz, o país apresentou um rápido crescimento económico nas suas infraestruturas, como também nas escolas, centros de saúde, estradas, etc. Isto tornou possível atingir novas zonas, deslocar-se com mais facilidade e abrir novas comunidades.

Em 1995 foi aberta a comunidade de Mangunde, diocese de Beira: escola, hospital e pastoral; em 2002 a comunidade de Balama, na diocese de Pemba, para a pastoral nas comunidades; em 2003 a comunidade de Muahivire, Nampula para acolher raparigas órfãs ou desfavorecidas.
Frente à nova situação social, política e econômica, surgem novos desafios como a epidemia de HIV-Sida, o aumento da pobreza, o desemprego, o aumento da população nas periferias das cidades, a exploração da terra e da madeira por parte das multinacionais; o baixo nível escolar e a corrupção a todos os níveis...
Tentamos procurar respostas a estes desafios consciencializando às pessoas que trabalham conosco: agentes de pastoral, leigos, professores, mulheres, jovens etc. Colaboramos com as comissões diocesanas de JPIC; educação; casais e catequese; colaboramos também com Instituições e Organizações em favor da vida e dos Direitos Humanos, etc.
No ano 2011 inauguramos a comunidade de Mamelodi na periferia de Pretoria (África do Sul), como sinal de querer continuar a viver olhando para o futuro, e alargar os nossos horizontes com outros povos.
Contemplando a nossa historia, surge espontâneo um obrigado grande ao Deus da vida por tudo o que nos concedeu nestes anos e, outro grande obrigado ao povo moçambicano que desde o inicio nos acolheu, nos acompanhou e nos fez crescer na fé e no seguimento de S. Daniel Comboni, nosso fundador.